Sempre na busca de textos que ajudem a dar sentido à tudo que faço, encontrei uma entrevista com Mia Coito, publicado no site Observatório da Diversidade. Segue abaixo o link e alguns trechos da entrevista.
Mia Couto: em busca das identidades plurais
IDENTIDADES - "Uma procura, que na verdade, é sempre ilusória. É a busca de uma miragem."
MINHA HISTÓRIA - "Eu percebi que aquilo que era a história minha e também a história de
muitos outros é o resultado de uma invenção. Nós estamos fazendo ficção
sobre quem somos."
BUSCA DE UMA LINGUAGEM - "...como a busca da identidade é falsa, como ela procura aquilo que não está
lá, eu não podia usar a linguagem comum, a língua enquanto edifício já
construído. Eu tinha que inventar um bocadinho esse caminho. E por isso a
busca pela palavra nova, pela reinvenção da linguagem."
ÁFRICA - "Existem algumas identidades que são diversas, mas aquela que eu acho que
é mais importante é o sentimento de religiosidade que une essas
pessoas: como se concebe Deus, como se concebe o nosso lugar após a
morte, como se concebe a própria morte. Essa espiritualidade de fato é
uma religião. Não tem nome. Não é reconhecida. Eu acho que o grande
elemento de aglutinação é essa coisa do lugar dos mortos, do invisível, a
fronteira entre o possível e o impossível."
BRASIL - "Eu nunca entenderei o Brasil se eu não souber nada sobre a religião
católica, por exemplo. Mesmo o brasileiro que se afirma ateu foi
moldado, foi condicionado em relação à ética, está embrionado disso.
Aqui é o mesmo. Imagina se eu não soubesse nada da religião católica,
como a maior parte das pessoas que vêm visitar a África não sabe desses
valores. Então, eles veem e acham que são umas práticas, umas crenças
exóticas, mas não entendem como isso funciona como um sistema de
pensamento. E enquanto não tiver essa sensibilidade, nunca vai conseguir
ter proximidade com a África porque está a ler o espaço apenas por
linhas mais epidérmicas como a política, a história etc. Aquilo que é
mais profundo não é tocado."
PRESERVAÇÃO DE CULTURAS - "A primeira tentação é falar da preservação de culturas. Elas têm que ser
respeitadas, mas eu não sei se têm que ser preservadas, afinal elas têm
a própria dinâmica de negociação, que não começou agora. Não existem
comunidades que são puras, que se mantiveram intactas e que só agora
estão sendo surpreendidas com os fenômenos sociais como a urbanização. É
verdade que agora tem uma rapidez quase antropofágica, mas eu não acho
que as culturas são tão frágeis como a gente pensa. Essas culturas, que
chamamos de tradicionais – palavra que não gosto muito – têm uma
capacidade de negociação muito forte."
Quero acrescentar que no trabalho que faço no Arena da Cultura, na cidade de Belo Horizonte, algumas das questões que destaquei acima da entrevista com o Mia Couto, aparecem o tempo todo. Costumo dizer que o trabalho que a equipe de professores em Patrimônio Cultural do Arena é o de identificar cacos espalhados, e esses cacos compõem um mosaico que não conhecemos. Começa com a própria ideia de identidades, que me parece muito interessante o Mia nos falar de uma ilusão, de uma miragem, pensando que todos nós estamos em constante mudança.
Sobre a invenção é importante dizer que, as peças do mosaico, com as histórias de vida das pessoas, traz dentro de si muito de invenção, mas uma invenção a partir das próprias histórias de cada um, histórias com muitas diferenças, mas também com muitas semelhanças, que traz dentro delas um Brasil rural, católico, com influências das festas religiosas europeias, das crenças e valores africanos e indígenas.
O trabalho em Patrimônio Cultural que não pretende privilegiar os modos pensantes europeus e norte-americanos, tem necessariamente que buscar a sua própria linguagem, não pode se contentar em apresentar conteúdos que "valorizem" a "diversidade" brasileira. Tem que trabalhar em busca de uma linguagem, de uma metodologia e pedagogia própria, que abracem a multiplicidade dos participantes dos seus cursos e oficinas. E nesse sentido qual é o caminho? Só existe um caminho "Nós fazermos por nós próprios. Esse é o caminho."