terça-feira, 26 de março de 2013

Memória e Educação

Em geral, quando falamos em "educação", nós temos a tendência a apontar para a escola como lugar onde este processo acontece, confundindo a escolarização com a educação. Ao desprezar os conhecimentos do dia a dia, os conhecimentos acumulados pela experiência do fazer, os aprendizados advindos do contato com a natureza, nós desprezamos uma parte enorme do conhecimento humano. E mais, nós criamos uma lacuna, uma distância entre o aprendizado da escola e a vida diária das pessoas.

Nos grupos e comunidades, onde a memória e a tradição oral tem um papel de destaque, os conhecimentos passados de geração a geração permanecem. Mas como podemos acessar os conhecimentos de gerações anteriores, ou mesmo das gerações atuais, mas que não estão nos livros?



A professora Zeila Demartini, em seu texto "Caminho para a reflexão e a diversidade", apresenta como o historiador Michael Pollak identifica "os elementos constitutivos da memória individual e coletiva":

1) os acontecimentos, vividos pessoalmente ou por associação; 
2) as pessoas/personagens e 
3) os lugares da memória, isto é, lugares ligados a uma lembrança


Temos enfrentado este desafio propondo atividades que não vão direto ao ponto, ou seja, não solicitamos às pessoas que façam relatos dos seus conhecimentos, ou que ensinem aos demais um determinado conhecimento que possuem, seja ele um fazer artesanal, uma receita ou  propriedades de uma planta. Como as oficinas da área de Patrimônio Cultural, têm na atividade artística o seu ponto de partida, procuramos primeiro reconhecer pontos de contato entre as pessoas através da arte, a música, a poesia, um causo, uma atividade com uma imagem (fotografia, desenho). Essas atividades são permeadas por rodas de conversa, deixando as pessoas à vontade e confiantes para dividirem os seus conhecimentos.


quinta-feira, 7 de março de 2013

Comunicação oral - Um outro ponto de vista


Retorno ao livro a História Falada, e trago abaixo uma pequena reflexão sobre a importância da oralidade.


Na construção da história de uma cidade, de um estado, de uma nação, não temos o ponto de vista de todos os envolvidos no processo, nem o ponto de vista escrito, nem o ponto de vista passado através das imagens.

Heloisa Pires no texto o "A vista que se abre", traz o seguinte comentário:

Dos livros que você já leu na vida, poucos são de autores negros ou indígenas. Como todos os livros que lemos são pontos de vista, o ponto de vista negro, ou indígena ainda não está presente na estrutura formal, na literatura escrita. Já na literatura oral, talvez tenhamos mais tecnologia, enquanto negro ou indígena, quanto às formas de comunicar e guardar uma memória.

Acrescento ainda que, as imagens que você já viu na vida, em forma de fotografia, vídeo, na televisão ou cinema, poucos, mas muito poucos são de artistas negros ou indígenas.

Na minhas andanças por Belo Horizonte, tenho encontrado mulheres e homens que construíram a cidade e uma sociedade que chamamos de belo horizontina, a maioria dessa pessoas que encontro, seja nos espaços dos BH Cidadania ou Centros Culturais da Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte, tem pouca ou nenhuma escolaridade, boa parte tem vergonha da história de suas vidas, do sofrimento que passaram. Embora tenham muitas histórias para contar, não acham que suas histórias são importantes. São negros, descendentes de índios, mas acima de tudo tiveram uma vida marcada pela pobreza e em boa parte das suas vidas, pela falta de acesso aos bens públicos da cidade. O nosso desafio é organizar este mosaico de histórias e achar maneiras de expor estes cacos de histórias, sem perder o contexto e sem atropelar os desejos e a fala dessas pessoas.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Lembranças e palavras: a memória e um conto do Mia Couto

Mais um pequeno intervalo na publicação de trechos do livro Memória Falada. A pausa é para publicar o texto "A morte, o tempo e o velho", do livro "Na Berna de Nenhuma Estrada" de Mia Couto.

Na obra do Mia Couto, a morte e o tempo estão sempre presentes. A memória é fundamental no desenrolas das ações. e não ações dos seus personagens. 

Este é um texto que está circulando nas redes soiciais e em blogs do Brasil e de Portugal e é mais uma contribuição, uma continuação das questões apresentadas nos posts anteriores deste blog.

A MORTE, O TEMPO E O VELHO

O homem se via envelhecer, sem protesto contra o tempo. Ansiava, sim, que a morte chegasse. Que chegasse tão sorrateira e morna como lhe surgiram as mulheres da sua vida. Nessa espera não havia amargura. Ele se perguntava: de que valia ter vivido tão bons momentos se já não se lembrava deles, nem a memória de sua existência lhe pertencia? Em hora de balanço: nunca tivera nada de que fosse dono, nunca houve de quem fosse cativo. Só ele teve o que não tinha posse: saudade, fome, amores.
Como a morte tardasse, decidiu meter-se na estrada e caminhar ao seu encontro. Tomou a direcção do oeste. Na sombra desse ponto cardeal, todos sabemos se encontra a moradia da morte.
Iniciou a sua excursão rumo ao poente sem que de ninguém se despedisse. Os adeuses são assunto dos vivos e ele se queria já na outra vertente do tempo. Caminhava há semanas quando avistou um homem alto, um rosto de enevoados traços. Trazia pela trela um bicho estranho, entre cão e hiena. Animal mal-aparentado, com ar maleitoso.
- Esta é a morte - disse o homem apontando o cão. E acrescentou - Sou eu que a passeio pelo mundo.
- E você quem é?
- Eu sou o Tempo.
E explicou que caminhavam assim, atrelados um ao outro, desde sempre. Ultimamente, porém, a Morte andava esmorecida, quase desqualificada. Razão de que, entre os vivantes, se desfalecia agora a molhos vistos, por dá cá nenhuma palha. Morria-se mesmo sem intervenção dela, da Morte.
O velho, desiludido, explicou ao Tempo a razão da sua viagem. Ele vinha ao encontro da Morte:
- Eu queria que ela me levasse para o sem retorno.
- Vai ser difícil.
- Lhe imploro: fiz todo este caminho para ela me levar.
- Veja como ela anda: desmotivada, focinho pelo chão.
- Mas eu queria tanto terminar-me!
Impossível, insistiu o Tempo. E para comprovar, soltou o animal. O bicho se afastou, arrastado e agónico, para o fundo de uma valeta. Ali se enroscou decadente como um pano gasto. O velho se condoeu e perguntou ao bicho:
- O que posso fazer por si?
- Eu só quero beber.
Não era de água a sua sede. Queria palavras. Não dessas de uso e abuso nas palavras tenras como o capim depois da chuva. Essas de reacender crenças. O velho prometeu garimpar entre todos os seus vocabulários e encontrar lá os materiais de reacender o mais perdido fôlego. Urdia, seu secreto plano: iria ao sonho e de lá retiraria uma paixão de palavras.
Na manhã seguinte, foi de encontro à besta moribunda. O bicho estava agora mais hiena que cão. Uma baba amarela lhe escorria pelo focinho. Apenas revirou os olhos quando sentiu o homem se aproximar.
- Trouxe?
E ele lhe entregou o sonho, as palavras, mais seu inebriamento. O animal sugou tudo aquilo com voracidade. Seus olhos eram os de uma criança sorvendo estória antes do sono.
E assim se seguiram durante umas manhãs. Em cada uma, o velho se anichava e confiava seus elixires. De cada vez, o bicho se animava mais um pouco. No final, a Morte se recompôs com tais pujanças que o velho ganhou coragem e lhe apresentou o pedido, seu anseio de que o mundo se lhe fechasse. A Morte escutou o pedido de olhos fechados.
- Amanhã vou cumprir o meu mandato - anunciou ela.
Nessa noite, o velho nem dormiu, posto perante a sua última noite. Sentindo-se derradeiras, passou em revista a sua vida. Nos últimos anos, ele tinha perdido a inteira memória. Mas agora, naquela noite, lhe revieram os momentos de felicidade, toda a sua existência se lhe desfilou. e sentiu saudade, melancolia por não poder revisitar amigos, terras e mulheres. até lhe assaltou a ideia de escapar dali e reganhar aventuras no caminho da vida. Para não ser atacado por mais recordações - com o risco do arrependimento - ele foi ao rio e caminhou ao sabor da corrente. Andar no sentido da água é o modo melhor para nos lavarmos das lembranças.
No dia seguinte, o velho foi à valeta onde encontrou a Morte. Ela estava cansada, respiração ofegante. E disse:
- Já matei.
- Matou? Matou quem?
- Matei o Tempo!
E apontou o corpo desfalecido do homem alto. A hiena, então, estendeu a trela ao velho e lhe ordenou:
- Agora leva-me tu a passear!

MIA COUTO
In "Na Berma de Nenhuma Estrada"