segunda-feira, 24 de março de 2014

A Serra do Rola Moça

O desenvolvimento de uma política nacional para o Patrimônio Cultural tem uma relação muito próxima com a poesia. Vários são os nomes de poetas que têm em sua obra uma relação com o Patrimônio Cultural brasileiro. O nome mais importante é Mario de Andrade, mas temos ainda Oswald de Andrade, Carlos Drumond de Andrade, Wally Salomão, Gilberto Gil, Manuel Bandeira, etc.... 
Segue abaixo um poema que é uma referência importante para os moradores da região do Barreiro em Belo Horizonte e que aparece com frequência nas oficinas da Helena Lima, professora do Arena da Cultura. O Patrimônio, na maioria das vezes é pensado/reconhecido a partir dos grandes monumentos, dos prédios históricos e das cidades históricas. No Arena da cultura desenvolvemos uma proposta que pensa e desenvolve atividades ligadas ao patrimônio, a partir do cotidiano das pessoas.

Mário de Andrade

A Serra do Rola-Moça
Não tinha esse nome não...
Eles eram do outro lado,
Vieram na vila casar.
E atravessaram a serra,
O noivo com a noiva dele
Cada qual no seu cavalo.
Antes que chegasse a noite
Se lembraram de voltar.
Disseram adeus pra todos
E se puserem de novo
Pelos atalhos da serra
Cada qual no seu cavalo.
Os dois estavam felizes,
Na altura tudo era paz.
Pelos caminhos estreitos
Ele na frente, ela atrás.
E riam. Como eles riam!
Riam até sem razão.
A Serra do Rola-Moça
Não tinha esse nome não.
As tribos rubras da tarde
Rapidamente fugiam
E apressadas se escondiam
Lá embaixo nos socavões,
Temendo a noite que vinha.
Porém os dois continuavam
Cada qual no seu cavalo,
E riam. Como eles riam!
E os risos também casavam
Com as risadas dos cascalhos,
Que pulando levianinhos
Da vereda se soltavam,
Buscando o despenhadeiro.
Ali, Fortuna inviolável!
O casco pisara em falso.
Dão noiva e cavalo um salto
Precipitados no abismo.
Nem o baque se escutou.
Faz um silêncio de morte,
Na altura tudo era paz ...
Chicoteado o seu cavalo,
No vão do despenhadeiro
O noivo se despenhou.
E a Serra do Rola-Moça
Rola-Moça se chamou.

sábado, 15 de março de 2014

limites e fronteiras


aqui coloco os meus limites.

me imponho pelo que não sei.

a minha fronteira vai além da ignorância e aquém do meu saber.

o meu espaço é etéreo, o meu muro uma ilusão.

jogo fora diariamente pilhas e mais pilhas de bulas me dizendo o tempo certo do fazer.

jogo fora bulas e mais bulas me apontando a direção do sol.

aqui dentro o meu centro.

semente de coentro que como junto com os baianos meus conterrâneos e com os indianos espalhados pelo mundo.

aqui fora o meu pensamento.

semente jogada ao vento.

às vezes estou no dentro sonhando com o fora.

tem dias que estou fora sonhando com o dentro.

sou periferia de mim mesmo e centro do universo.

meu registro de nascimento é periferia ou centro?

o meu diploma, o meu paladar, os meus amigos, a minha poesia, o meu erro de cálculo, o meu cálculo renal, minhas intempéries, minhas noites de amor, o meu mau humor, eu bêbado gritando pra lua, o meu discurso incerto, o meu, o meu, o meu...

está no centro ou na periferia?

proponho-lhes um jogo...

o olhar para aquilo que se pode ouvir. o ouvir para aquilo que se pode sentir. o tato para aquilo que se pode comer. comer aquilo que se pode olhar.

um arnaldo me disse:

o seu olhar
melhora o meu


uma lucia que também é casa nova sussurrou-me por entre a fresta:

devorei-te somente no tempo
para não devorar-te no espaço


saio em desalinho pelos caminhos mais incertos

sigo em direção oeste e sei que vou bater no mar

vou para o leste e sei que vou bater no mar

quem disse que estamos no sul?

quem disse que somos ocidente?

quem convencionou o nascimento dos pássaros

quem ovacionou aquilo que veio de dentro da floresta?

sexta-feira, 14 de março de 2014




verdades 

as verdades da minha cabeça
sim

lanças do futuro
pão do dia-a-dia

minhas verdades verdadeiras
mutáveis
mutiláveis

minhas verdades
podres vaidades

minhas verdades
grandes verdades

grades do futuro

minhas verdades que me sustentam
cachorro de sete cabeças

minhas verdades
coerência

toldo a aparar as chuvas


carência pra espalhar