Lindeza de todo tamanho...
O Projeto Território do Brincar , assim como o Infâncias
têm ajudado a mim, e a equipe de Patrimônio Cultural do Arena, a pensar
na articulação entre cultura da Infância e Patrimônio Cultural. Este
vídeo faz isso de maneira especial. Temos um trabalho nos Centros
Culturais de Belo Horizonte que pode nos ajudar muito a dar sentido e compreensão às
palavras patrimônio, cultura, memória, identidade, diversidade. Nosso
Patrimônio. Mas não um patrimônio que está somente no "lá", ele está
também no "aqui". Faz parte do dia a dia das crianças e adultos de Belo
Horizonte. Tratamos isso na nossa equipe como "Patrimônio do Cotidiano".
Nossas brincadeiras cotidianas, nossas festas religiosas, nossas festas
de rua, nossas rodas de conversa, trocas de ervas, receitas,
quitandas... nossas trocas de saberes, de conhecimentos ancestrais...
quase que invisível na grandeza e complexidade da cidade.
Território do Brincar no Maranhão
quarta-feira, 16 de outubro de 2013
segunda-feira, 23 de setembro de 2013
SABERES E FAZERES
SABERES E FAZERES
Patrimônio Cultural no Arena da Cultura
As histórias da vida e da comunidade.
As bonecas, brinquedos, casas, hospitais, escolas e poesia em caixinhas de fósforo.
Os deuses africanos, o santo, a benzedeira.
O branco, o negro, o índio.
As cores da cultura popular, dos povos originários, originais.
Originais da cor, originais do batuque, originais da forma, originais das melodias, originais dos materiais.
Alegria apontando o futuro.
Precisamos de preservação?
A criatividade é a prova dos nove.
Passado e futuro em diálogo com o presente.
A música, a dança, o drama popular, a resiliência da sabedoria.
É com linhas e cores que o desenho da vida se faz.
A menina flutua e os ornamentos apontam muitos caminhos.
É couro, é pau, é som.
Um pedaço de papel, um pião que roda, roda, roda... pula corda, dá a mão e vai.
E corre e roda... o mundo todo.
Dança do universo cruzando continentes, países, estados, cidades, vilas e florestas.
A cura antiga.
Na alegria e na dor também há poesia.
ailtom gobira – setembro de 2013
terça-feira, 9 de julho de 2013
IDENTIDADES PLURAIS E A BUSCA POR CAMINHOS
Sempre na busca de textos que ajudem a dar sentido à tudo que faço, encontrei uma entrevista com Mia Coito, publicado no site Observatório da Diversidade. Segue abaixo o link e alguns trechos da entrevista.
Mia Couto: em busca das identidades plurais
IDENTIDADES - "Uma procura, que na verdade, é sempre ilusória. É a busca de uma miragem."
MINHA HISTÓRIA - "Eu percebi que aquilo que era a história minha e também a história de muitos outros é o resultado de uma invenção. Nós estamos fazendo ficção sobre quem somos."
BUSCA DE UMA LINGUAGEM - "...como a busca da identidade é falsa, como ela procura aquilo que não está lá, eu não podia usar a linguagem comum, a língua enquanto edifício já construído. Eu tinha que inventar um bocadinho esse caminho. E por isso a busca pela palavra nova, pela reinvenção da linguagem."
ÁFRICA - "Existem algumas identidades que são diversas, mas aquela que eu acho que é mais importante é o sentimento de religiosidade que une essas pessoas: como se concebe Deus, como se concebe o nosso lugar após a morte, como se concebe a própria morte. Essa espiritualidade de fato é uma religião. Não tem nome. Não é reconhecida. Eu acho que o grande elemento de aglutinação é essa coisa do lugar dos mortos, do invisível, a fronteira entre o possível e o impossível."
BRASIL - "Eu nunca entenderei o Brasil se eu não souber nada sobre a religião católica, por exemplo. Mesmo o brasileiro que se afirma ateu foi moldado, foi condicionado em relação à ética, está embrionado disso. Aqui é o mesmo. Imagina se eu não soubesse nada da religião católica, como a maior parte das pessoas que vêm visitar a África não sabe desses valores. Então, eles veem e acham que são umas práticas, umas crenças exóticas, mas não entendem como isso funciona como um sistema de pensamento. E enquanto não tiver essa sensibilidade, nunca vai conseguir ter proximidade com a África porque está a ler o espaço apenas por linhas mais epidérmicas como a política, a história etc. Aquilo que é mais profundo não é tocado."
PRESERVAÇÃO DE CULTURAS - "A primeira tentação é falar da preservação de culturas. Elas têm que ser respeitadas, mas eu não sei se têm que ser preservadas, afinal elas têm a própria dinâmica de negociação, que não começou agora. Não existem comunidades que são puras, que se mantiveram intactas e que só agora estão sendo surpreendidas com os fenômenos sociais como a urbanização. É verdade que agora tem uma rapidez quase antropofágica, mas eu não acho que as culturas são tão frágeis como a gente pensa. Essas culturas, que chamamos de tradicionais – palavra que não gosto muito – têm uma capacidade de negociação muito forte."
Quero acrescentar que no trabalho que faço no Arena da Cultura, na cidade de Belo Horizonte, algumas das questões que destaquei acima da entrevista com o Mia Couto, aparecem o tempo todo. Costumo dizer que o trabalho que a equipe de professores em Patrimônio Cultural do Arena é o de identificar cacos espalhados, e esses cacos compõem um mosaico que não conhecemos. Começa com a própria ideia de identidades, que me parece muito interessante o Mia nos falar de uma ilusão, de uma miragem, pensando que todos nós estamos em constante mudança.
Sobre a invenção é importante dizer que, as peças do mosaico, com as histórias de vida das pessoas, traz dentro de si muito de invenção, mas uma invenção a partir das próprias histórias de cada um, histórias com muitas diferenças, mas também com muitas semelhanças, que traz dentro delas um Brasil rural, católico, com influências das festas religiosas europeias, das crenças e valores africanos e indígenas.
O trabalho em Patrimônio Cultural que não pretende privilegiar os modos pensantes europeus e norte-americanos, tem necessariamente que buscar a sua própria linguagem, não pode se contentar em apresentar conteúdos que "valorizem" a "diversidade" brasileira. Tem que trabalhar em busca de uma linguagem, de uma metodologia e pedagogia própria, que abracem a multiplicidade dos participantes dos seus cursos e oficinas. E nesse sentido qual é o caminho? Só existe um caminho "Nós fazermos por nós próprios. Esse é o caminho."
Mia Couto: em busca das identidades plurais
IDENTIDADES - "Uma procura, que na verdade, é sempre ilusória. É a busca de uma miragem."
MINHA HISTÓRIA - "Eu percebi que aquilo que era a história minha e também a história de muitos outros é o resultado de uma invenção. Nós estamos fazendo ficção sobre quem somos."
BUSCA DE UMA LINGUAGEM - "...como a busca da identidade é falsa, como ela procura aquilo que não está lá, eu não podia usar a linguagem comum, a língua enquanto edifício já construído. Eu tinha que inventar um bocadinho esse caminho. E por isso a busca pela palavra nova, pela reinvenção da linguagem."
ÁFRICA - "Existem algumas identidades que são diversas, mas aquela que eu acho que é mais importante é o sentimento de religiosidade que une essas pessoas: como se concebe Deus, como se concebe o nosso lugar após a morte, como se concebe a própria morte. Essa espiritualidade de fato é uma religião. Não tem nome. Não é reconhecida. Eu acho que o grande elemento de aglutinação é essa coisa do lugar dos mortos, do invisível, a fronteira entre o possível e o impossível."
BRASIL - "Eu nunca entenderei o Brasil se eu não souber nada sobre a religião católica, por exemplo. Mesmo o brasileiro que se afirma ateu foi moldado, foi condicionado em relação à ética, está embrionado disso. Aqui é o mesmo. Imagina se eu não soubesse nada da religião católica, como a maior parte das pessoas que vêm visitar a África não sabe desses valores. Então, eles veem e acham que são umas práticas, umas crenças exóticas, mas não entendem como isso funciona como um sistema de pensamento. E enquanto não tiver essa sensibilidade, nunca vai conseguir ter proximidade com a África porque está a ler o espaço apenas por linhas mais epidérmicas como a política, a história etc. Aquilo que é mais profundo não é tocado."
PRESERVAÇÃO DE CULTURAS - "A primeira tentação é falar da preservação de culturas. Elas têm que ser respeitadas, mas eu não sei se têm que ser preservadas, afinal elas têm a própria dinâmica de negociação, que não começou agora. Não existem comunidades que são puras, que se mantiveram intactas e que só agora estão sendo surpreendidas com os fenômenos sociais como a urbanização. É verdade que agora tem uma rapidez quase antropofágica, mas eu não acho que as culturas são tão frágeis como a gente pensa. Essas culturas, que chamamos de tradicionais – palavra que não gosto muito – têm uma capacidade de negociação muito forte."
Quero acrescentar que no trabalho que faço no Arena da Cultura, na cidade de Belo Horizonte, algumas das questões que destaquei acima da entrevista com o Mia Couto, aparecem o tempo todo. Costumo dizer que o trabalho que a equipe de professores em Patrimônio Cultural do Arena é o de identificar cacos espalhados, e esses cacos compõem um mosaico que não conhecemos. Começa com a própria ideia de identidades, que me parece muito interessante o Mia nos falar de uma ilusão, de uma miragem, pensando que todos nós estamos em constante mudança.
Sobre a invenção é importante dizer que, as peças do mosaico, com as histórias de vida das pessoas, traz dentro de si muito de invenção, mas uma invenção a partir das próprias histórias de cada um, histórias com muitas diferenças, mas também com muitas semelhanças, que traz dentro delas um Brasil rural, católico, com influências das festas religiosas europeias, das crenças e valores africanos e indígenas.
O trabalho em Patrimônio Cultural que não pretende privilegiar os modos pensantes europeus e norte-americanos, tem necessariamente que buscar a sua própria linguagem, não pode se contentar em apresentar conteúdos que "valorizem" a "diversidade" brasileira. Tem que trabalhar em busca de uma linguagem, de uma metodologia e pedagogia própria, que abracem a multiplicidade dos participantes dos seus cursos e oficinas. E nesse sentido qual é o caminho? Só existe um caminho "Nós fazermos por nós próprios. Esse é o caminho."
terça-feira, 4 de junho de 2013
Registros e novos significados culturais e artísticos
Na área de Patrimônio é muito comum a preocupação com os registros e preservação. Mas qual é mesmo a razão dos registros? De que servem registros culturais sem vida social, cultural, sem o contato com as pessoas? E quanto a preservação? Preservar para que mesmo? Como se fosse uma foto de um tempo? Uma imagem que corre o risco de ficar amarelada, esquecida em um canto? Da casa, do computador, nas nuvens virtuais?
Por isso, me parece tão pertinentes os questionamentos do Edmir Perrotti quando diz que:
"... não podemos deixar de perguntar também o que significam ações de registrar e preservar diferentes vozes e nossa época, tão rica em recursos tecnológicos de armazenamento e circulação de informações, mas tão pobre de interações que permitam às vozes tornarem-se efetivamente significados culturais vivos, que ultrapassam os limites estreitos de onde são pronunciadas. Nesse sentido, não podemos deixar de considerar, por exemplo, que muitas vezes o direito a voz é direito a expressão, mas não a escuta social, condição de sua existência cultural e razão de ser."
As pessoas adoram falar, cantar, poetar, pintar, desenhar suas vidas, seus conhecimentos. Mas, mais que tudo elas gostam da troca, do aprender junto. Ao mesmo tempo em que falam, cantam, dançam, querem que também tenha-se um tempo para tomar um café, um chá, dividir um pedaço de bolo. Transformar o espaço do encontro em um espaço afetivo.
Muitas vezes achamos que registrando, e até mesmo entregando os registros de volta à pessoa, ou pessoas que foram "a voz" desses registros, estamos garantindo o direito a voz. As pessoas querem mais do que isso, querem a ocupação do espaço social, querem participar das decisões do espaço social, querem se sentir donas da sua capacidade criativa.
"... se publicarmos tais vozes, sob diferentes formas, a simples publicação não garante também o direito à voz. A voz, além do espaço social, necessita do espaço público para ter existência e validar-se culturalmente. Sem isso pode até tornar-se um fenômeno de bases quantitativas importantes, mas não um fenômeno de reconhecida importância, capaz de introduzir novos significados na cultura." (Edmir Perrotti)
Temos ainda um outro risco em torno dos registros, o dos chamados "produtos culturais", que são resultados de oficinas, encontros, trabalhos realizados em torno da memória e do patrimônio. É muito comum que os gestores e professores procurem modelos de "sucesso" no trabalho com a memória. Em Minas Gerais temos as Meninas de Sinhá, as Lavadeiras de Almenara, as "colchas de retalho", que as pessoas querem ver reproduzidas nos trabalhos, principalmente aqueles com idosos. Vêm nestes exemplos uma possibilidade de geração de renda, do sucesso, da visibilidade. Mas não percebem um risco por trás destes exemplos:
"O risco de mercantilização da memória é, portanto grande, uma vez que do produto ao mercado, o passo é pequeno e rápido. A memória-produto, a memória-mercadoria é, pois, um risco que ronda permanentemente os projetos de memória de nossa época."
Não vejo problemas em atividades que criem perspectivas de geração de renda para as pessoas, ou mesmo de uma possibilidade de visibilidade social através da música, da dança, dos trabalhos artesanais. O problema acontece quando o "produto" é mais importante que o processo. Em geral quando isso acontece, os grupos perdem em diversidade e os "menos aptos" são deixados para trás. A criatividade cede espaço ao "bem acabado", ao modo "certo" de fazer, à cópia dos exemplos que deram certo.
Por isso, me parece tão pertinentes os questionamentos do Edmir Perrotti quando diz que:
"... não podemos deixar de perguntar também o que significam ações de registrar e preservar diferentes vozes e nossa época, tão rica em recursos tecnológicos de armazenamento e circulação de informações, mas tão pobre de interações que permitam às vozes tornarem-se efetivamente significados culturais vivos, que ultrapassam os limites estreitos de onde são pronunciadas. Nesse sentido, não podemos deixar de considerar, por exemplo, que muitas vezes o direito a voz é direito a expressão, mas não a escuta social, condição de sua existência cultural e razão de ser."
Foto: Helena Flávia Lima
As pessoas adoram falar, cantar, poetar, pintar, desenhar suas vidas, seus conhecimentos. Mas, mais que tudo elas gostam da troca, do aprender junto. Ao mesmo tempo em que falam, cantam, dançam, querem que também tenha-se um tempo para tomar um café, um chá, dividir um pedaço de bolo. Transformar o espaço do encontro em um espaço afetivo.
Muitas vezes achamos que registrando, e até mesmo entregando os registros de volta à pessoa, ou pessoas que foram "a voz" desses registros, estamos garantindo o direito a voz. As pessoas querem mais do que isso, querem a ocupação do espaço social, querem participar das decisões do espaço social, querem se sentir donas da sua capacidade criativa.
"... se publicarmos tais vozes, sob diferentes formas, a simples publicação não garante também o direito à voz. A voz, além do espaço social, necessita do espaço público para ter existência e validar-se culturalmente. Sem isso pode até tornar-se um fenômeno de bases quantitativas importantes, mas não um fenômeno de reconhecida importância, capaz de introduzir novos significados na cultura." (Edmir Perrotti)
Temos ainda um outro risco em torno dos registros, o dos chamados "produtos culturais", que são resultados de oficinas, encontros, trabalhos realizados em torno da memória e do patrimônio. É muito comum que os gestores e professores procurem modelos de "sucesso" no trabalho com a memória. Em Minas Gerais temos as Meninas de Sinhá, as Lavadeiras de Almenara, as "colchas de retalho", que as pessoas querem ver reproduzidas nos trabalhos, principalmente aqueles com idosos. Vêm nestes exemplos uma possibilidade de geração de renda, do sucesso, da visibilidade. Mas não percebem um risco por trás destes exemplos:
"O risco de mercantilização da memória é, portanto grande, uma vez que do produto ao mercado, o passo é pequeno e rápido. A memória-produto, a memória-mercadoria é, pois, um risco que ronda permanentemente os projetos de memória de nossa época."
Não vejo problemas em atividades que criem perspectivas de geração de renda para as pessoas, ou mesmo de uma possibilidade de visibilidade social através da música, da dança, dos trabalhos artesanais. O problema acontece quando o "produto" é mais importante que o processo. Em geral quando isso acontece, os grupos perdem em diversidade e os "menos aptos" são deixados para trás. A criatividade cede espaço ao "bem acabado", ao modo "certo" de fazer, à cópia dos exemplos que deram certo.
sexta-feira, 10 de maio de 2013
Quando o índio mesmo filma a sua cultura, o vídeo é um espelho"
Uma pequena aula sobre registros e como os povos indígenas cuidam da sua memória com o uso das novas tecnologias.
"Quando o índio mesmo filma a sua cultura, o vídeo é um espelho" - Paulinho Ecerae Kadojeba
Pela primeira vez um ritual de funeral bororo (feito para 4 aroés - bororos mortos) seria filmado por um bororo - nosso parceiro do CEDIPP Paulinho Ecerae Kadojeba. No entanto, a filmagem não aconteceu e ao explicar as razões para Caio Lazaneo (em meio ao seu mestrado na ECA/USP), Paulinho nos dá uma verdadeira aula sobre o respeito e os cuidados que precisamos ter quando imersos nas proposta da Produção Partilhada do Conhecimento.
http://www.youtube.com/watch?v=rpCUsH8th0g
terça-feira, 26 de março de 2013
Memória e Educação
Em geral, quando falamos em "educação", nós temos a tendência a apontar para a escola como lugar onde este processo acontece, confundindo a escolarização com a educação. Ao desprezar os conhecimentos do dia a dia, os conhecimentos acumulados pela experiência do fazer, os aprendizados advindos do contato com a natureza, nós desprezamos uma parte enorme do conhecimento humano. E mais, nós criamos uma lacuna, uma distância entre o aprendizado da escola e a vida diária das pessoas.
Nos grupos e comunidades, onde a memória e a tradição oral tem um papel de destaque, os conhecimentos passados de geração a geração permanecem. Mas como podemos acessar os conhecimentos de gerações anteriores, ou mesmo das gerações atuais, mas que não estão nos livros?

A professora Zeila Demartini, em seu texto "Caminho para a reflexão e a diversidade", apresenta como o historiador Michael Pollak identifica "os elementos constitutivos da memória individual e coletiva":
Temos enfrentado este desafio propondo atividades que não vão direto ao ponto, ou seja, não solicitamos às pessoas que façam relatos dos seus conhecimentos, ou que ensinem aos demais um determinado conhecimento que possuem, seja ele um fazer artesanal, uma receita ou propriedades de uma planta. Como as oficinas da área de Patrimônio Cultural, têm na atividade artística o seu ponto de partida, procuramos primeiro reconhecer pontos de contato entre as pessoas através da arte, a música, a poesia, um causo, uma atividade com uma imagem (fotografia, desenho). Essas atividades são permeadas por rodas de conversa, deixando as pessoas à vontade e confiantes para dividirem os seus conhecimentos.
Nos grupos e comunidades, onde a memória e a tradição oral tem um papel de destaque, os conhecimentos passados de geração a geração permanecem. Mas como podemos acessar os conhecimentos de gerações anteriores, ou mesmo das gerações atuais, mas que não estão nos livros?

A professora Zeila Demartini, em seu texto "Caminho para a reflexão e a diversidade", apresenta como o historiador Michael Pollak identifica "os elementos constitutivos da memória individual e coletiva":
1) os acontecimentos, vividos pessoalmente ou por associação;
2) as pessoas/personagens e
3) os lugares da memória, isto é, lugares ligados a uma lembrança
Temos enfrentado este desafio propondo atividades que não vão direto ao ponto, ou seja, não solicitamos às pessoas que façam relatos dos seus conhecimentos, ou que ensinem aos demais um determinado conhecimento que possuem, seja ele um fazer artesanal, uma receita ou propriedades de uma planta. Como as oficinas da área de Patrimônio Cultural, têm na atividade artística o seu ponto de partida, procuramos primeiro reconhecer pontos de contato entre as pessoas através da arte, a música, a poesia, um causo, uma atividade com uma imagem (fotografia, desenho). Essas atividades são permeadas por rodas de conversa, deixando as pessoas à vontade e confiantes para dividirem os seus conhecimentos.
quinta-feira, 7 de março de 2013
Comunicação oral - Um outro ponto de vista
Retorno ao livro a História Falada, e trago abaixo uma pequena reflexão sobre a importância da oralidade.

Na construção da história de uma cidade, de um estado, de uma nação, não temos o ponto de vista de todos os envolvidos no processo, nem o ponto de vista escrito, nem o ponto de vista passado através das imagens.
Heloisa Pires no texto o "A vista que se abre", traz o seguinte comentário:
Dos livros que você já leu na vida, poucos são de autores negros ou indígenas. Como todos os livros que lemos são pontos de vista, o ponto de vista negro, ou indígena ainda não está presente na estrutura formal, na literatura escrita. Já na literatura oral, talvez tenhamos mais tecnologia, enquanto negro ou indígena, quanto às formas de comunicar e guardar uma memória.
Acrescento ainda que, as imagens que você já viu na vida, em forma de fotografia, vídeo, na televisão ou cinema, poucos, mas muito poucos são de artistas negros ou indígenas.
Na minhas andanças por Belo Horizonte, tenho encontrado mulheres e homens que construíram a cidade e uma sociedade que chamamos de belo horizontina, a maioria dessa pessoas que encontro, seja nos espaços dos BH Cidadania ou Centros Culturais da Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte, tem pouca ou nenhuma escolaridade, boa parte tem vergonha da história de suas vidas, do sofrimento que passaram. Embora tenham muitas histórias para contar, não acham que suas histórias são importantes. São negros, descendentes de índios, mas acima de tudo tiveram uma vida marcada pela pobreza e em boa parte das suas vidas, pela falta de acesso aos bens públicos da cidade. O nosso desafio é organizar este mosaico de histórias e achar maneiras de expor estes cacos de histórias, sem perder o contexto e sem atropelar os desejos e a fala dessas pessoas.
segunda-feira, 4 de março de 2013
Lembranças e palavras: a memória e um conto do Mia Couto
Mais um pequeno intervalo na publicação de trechos do livro Memória Falada. A pausa é para publicar o texto "A morte, o tempo e o velho", do livro "Na Berna de Nenhuma Estrada" de Mia Couto.
Na obra do Mia Couto, a morte e o tempo estão sempre presentes. A memória é fundamental no desenrolas das ações. e não ações dos seus personagens.
Este é um texto que está circulando nas redes soiciais e em blogs do Brasil e de Portugal e é mais uma contribuição, uma continuação das questões apresentadas nos posts anteriores deste blog.
A MORTE, O TEMPO E O VELHO
O homem se via envelhecer, sem protesto contra o tempo. Ansiava, sim, que a morte chegasse. Que chegasse tão sorrateira e morna como lhe surgiram as mulheres da sua vida. Nessa espera não havia amargura. Ele se perguntava: de que valia ter vivido tão bons momentos se já não se lembrava deles, nem a memória de sua existência lhe pertencia? Em hora de balanço: nunca tivera nada de que fosse dono, nunca houve de quem fosse cativo. Só ele teve o que não tinha posse: saudade, fome, amores.
Como a morte tardasse, decidiu meter-se na estrada e caminhar ao seu encontro. Tomou a direcção do oeste. Na sombra desse ponto cardeal, todos sabemos se encontra a moradia da morte.
Iniciou a sua excursão rumo ao poente sem que de ninguém se despedisse. Os adeuses são assunto dos vivos e ele se queria já na outra vertente do tempo. Caminhava há semanas quando avistou um homem alto, um rosto de enevoados traços. Trazia pela trela um bicho estranho, entre cão e hiena. Animal mal-aparentado, com ar maleitoso.
- Esta é a morte - disse o homem apontando o cão. E acrescentou - Sou eu que a passeio pelo mundo.
- E você quem é?
- Eu sou o Tempo.
E explicou que caminhavam assim, atrelados um ao outro, desde sempre. Ultimamente, porém, a Morte andava esmorecida, quase desqualificada. Razão de que, entre os vivantes, se desfalecia agora a molhos vistos, por dá cá nenhuma palha. Morria-se mesmo sem intervenção dela, da Morte.
O velho, desiludido, explicou ao Tempo a razão da sua viagem. Ele vinha ao encontro da Morte:
- Eu queria que ela me levasse para o sem retorno.
- Vai ser difícil.
- Lhe imploro: fiz todo este caminho para ela me levar.
- Veja como ela anda: desmotivada, focinho pelo chão.
- Mas eu queria tanto terminar-me!
Impossível, insistiu o Tempo. E para comprovar, soltou o animal. O bicho se afastou, arrastado e agónico, para o fundo de uma valeta. Ali se enroscou decadente como um pano gasto. O velho se condoeu e perguntou ao bicho:
- O que posso fazer por si?
- Eu só quero beber.
Não era de água a sua sede. Queria palavras. Não dessas de uso e abuso nas palavras tenras como o capim depois da chuva. Essas de reacender crenças. O velho prometeu garimpar entre todos os seus vocabulários e encontrar lá os materiais de reacender o mais perdido fôlego. Urdia, seu secreto plano: iria ao sonho e de lá retiraria uma paixão de palavras.
Na manhã seguinte, foi de encontro à besta moribunda. O bicho estava agora mais hiena que cão. Uma baba amarela lhe escorria pelo focinho. Apenas revirou os olhos quando sentiu o homem se aproximar.
- Trouxe?
E ele lhe entregou o sonho, as palavras, mais seu inebriamento. O animal sugou tudo aquilo com voracidade. Seus olhos eram os de uma criança sorvendo estória antes do sono.
E assim se seguiram durante umas manhãs. Em cada uma, o velho se anichava e confiava seus elixires. De cada vez, o bicho se animava mais um pouco. No final, a Morte se recompôs com tais pujanças que o velho ganhou coragem e lhe apresentou o pedido, seu anseio de que o mundo se lhe fechasse. A Morte escutou o pedido de olhos fechados.
- Amanhã vou cumprir o meu mandato - anunciou ela.
Nessa noite, o velho nem dormiu, posto perante a sua última noite. Sentindo-se derradeiras, passou em revista a sua vida. Nos últimos anos, ele tinha perdido a inteira memória. Mas agora, naquela noite, lhe revieram os momentos de felicidade, toda a sua existência se lhe desfilou. e sentiu saudade, melancolia por não poder revisitar amigos, terras e mulheres. até lhe assaltou a ideia de escapar dali e reganhar aventuras no caminho da vida. Para não ser atacado por mais recordações - com o risco do arrependimento - ele foi ao rio e caminhou ao sabor da corrente. Andar no sentido da água é o modo melhor para nos lavarmos das lembranças.
No dia seguinte, o velho foi à valeta onde encontrou a Morte. Ela estava cansada, respiração ofegante. E disse:
- Já matei.
- Matou? Matou quem?
- Matei o Tempo!
E apontou o corpo desfalecido do homem alto. A hiena, então, estendeu a trela ao velho e lhe ordenou:
- Agora leva-me tu a passear!
MIA COUTO
In "Na Berma de Nenhuma Estrada"
Na obra do Mia Couto, a morte e o tempo estão sempre presentes. A memória é fundamental no desenrolas das ações. e não ações dos seus personagens.
Este é um texto que está circulando nas redes soiciais e em blogs do Brasil e de Portugal e é mais uma contribuição, uma continuação das questões apresentadas nos posts anteriores deste blog.
A MORTE, O TEMPO E O VELHO
O homem se via envelhecer, sem protesto contra o tempo. Ansiava, sim, que a morte chegasse. Que chegasse tão sorrateira e morna como lhe surgiram as mulheres da sua vida. Nessa espera não havia amargura. Ele se perguntava: de que valia ter vivido tão bons momentos se já não se lembrava deles, nem a memória de sua existência lhe pertencia? Em hora de balanço: nunca tivera nada de que fosse dono, nunca houve de quem fosse cativo. Só ele teve o que não tinha posse: saudade, fome, amores.
Como a morte tardasse, decidiu meter-se na estrada e caminhar ao seu encontro. Tomou a direcção do oeste. Na sombra desse ponto cardeal, todos sabemos se encontra a moradia da morte.
Iniciou a sua excursão rumo ao poente sem que de ninguém se despedisse. Os adeuses são assunto dos vivos e ele se queria já na outra vertente do tempo. Caminhava há semanas quando avistou um homem alto, um rosto de enevoados traços. Trazia pela trela um bicho estranho, entre cão e hiena. Animal mal-aparentado, com ar maleitoso.
- Esta é a morte - disse o homem apontando o cão. E acrescentou - Sou eu que a passeio pelo mundo.
- E você quem é?
- Eu sou o Tempo.
E explicou que caminhavam assim, atrelados um ao outro, desde sempre. Ultimamente, porém, a Morte andava esmorecida, quase desqualificada. Razão de que, entre os vivantes, se desfalecia agora a molhos vistos, por dá cá nenhuma palha. Morria-se mesmo sem intervenção dela, da Morte.
O velho, desiludido, explicou ao Tempo a razão da sua viagem. Ele vinha ao encontro da Morte:
- Eu queria que ela me levasse para o sem retorno.
- Vai ser difícil.
- Lhe imploro: fiz todo este caminho para ela me levar.
- Veja como ela anda: desmotivada, focinho pelo chão.
- Mas eu queria tanto terminar-me!
Impossível, insistiu o Tempo. E para comprovar, soltou o animal. O bicho se afastou, arrastado e agónico, para o fundo de uma valeta. Ali se enroscou decadente como um pano gasto. O velho se condoeu e perguntou ao bicho:
- O que posso fazer por si?
- Eu só quero beber.
Não era de água a sua sede. Queria palavras. Não dessas de uso e abuso nas palavras tenras como o capim depois da chuva. Essas de reacender crenças. O velho prometeu garimpar entre todos os seus vocabulários e encontrar lá os materiais de reacender o mais perdido fôlego. Urdia, seu secreto plano: iria ao sonho e de lá retiraria uma paixão de palavras.
Na manhã seguinte, foi de encontro à besta moribunda. O bicho estava agora mais hiena que cão. Uma baba amarela lhe escorria pelo focinho. Apenas revirou os olhos quando sentiu o homem se aproximar.
- Trouxe?
E ele lhe entregou o sonho, as palavras, mais seu inebriamento. O animal sugou tudo aquilo com voracidade. Seus olhos eram os de uma criança sorvendo estória antes do sono.
E assim se seguiram durante umas manhãs. Em cada uma, o velho se anichava e confiava seus elixires. De cada vez, o bicho se animava mais um pouco. No final, a Morte se recompôs com tais pujanças que o velho ganhou coragem e lhe apresentou o pedido, seu anseio de que o mundo se lhe fechasse. A Morte escutou o pedido de olhos fechados.
- Amanhã vou cumprir o meu mandato - anunciou ela.
Nessa noite, o velho nem dormiu, posto perante a sua última noite. Sentindo-se derradeiras, passou em revista a sua vida. Nos últimos anos, ele tinha perdido a inteira memória. Mas agora, naquela noite, lhe revieram os momentos de felicidade, toda a sua existência se lhe desfilou. e sentiu saudade, melancolia por não poder revisitar amigos, terras e mulheres. até lhe assaltou a ideia de escapar dali e reganhar aventuras no caminho da vida. Para não ser atacado por mais recordações - com o risco do arrependimento - ele foi ao rio e caminhou ao sabor da corrente. Andar no sentido da água é o modo melhor para nos lavarmos das lembranças.
No dia seguinte, o velho foi à valeta onde encontrou a Morte. Ela estava cansada, respiração ofegante. E disse:
- Já matei.
- Matou? Matou quem?
- Matei o Tempo!
E apontou o corpo desfalecido do homem alto. A hiena, então, estendeu a trela ao velho e lhe ordenou:
- Agora leva-me tu a passear!
MIA COUTO
In "Na Berma de Nenhuma Estrada"
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013
O Resgate do Mundo Mágico - Sonho e memória oral
Os trechos abaixo são do líder e pensador indigena Ailton Krenak e também fazem parte do livro História Falada: memória, rede e mudança social.
Tenho uma idéia sobre tradição oral e sobre memória, que não são exatamente a mesma coisa. A memória pode ser alguma coisa além da tradição oral. Talvez a memória possa, em alguns casos, até prescindir da oralidade. Em algumas tradições a memória pode estar também ligada ao sonho. Na tradição do meu povo, sabemos que o sonho é um veículo de transmissão de memória. Nós podemos receber um canto no sonho e aquele canto é reconhecido como a continuidade do canto de um bisavô, de um tataravô que não está mais vivo e, portanto não está falando conosco. Ele está se comunicando, está transmitindo para nós a continuidade de uma memória através de um recurso que não é a fala, não é a tradição oral, é o sonho. É um exemplo que busquei para ilustrar a idéia de memória, pois acho que memória e tradição oral em alguns momentos se confundem, e em outros, dependendo da tradição e do povo a que você está se referindo, não são a mesma coisa.
Esta fala do Ailton krenak me faz lembrar uma história de uma pessoa muito querida que conheci no Pará. Um dia me contou como se deu com ela o processo de reconhecimento do poder de curar pessoas através das ervas, plantas medicinais. Ela era ainda uma adolescente de 16 anos e já sabia intuitivamente que tinha conhecimentos sobre plantas que eram diferenciados. Um dia teve um sonho com sua avó, e neste sonho recebeu ensinamentos e uma confirmação da sua capacidade de reconhecer plantas e ajudar outras pessoas. Acordou e lembrava de todos os detalhes do sonho, podendo reconstruir mentalmente as palavras e orações que recebera através do sonho. Ela não é uma indígena, mas é uma filha da floresta, com uma família em que se misturam nordestinos e indígenas.
Os cacos dispersos
Uma atitude que tenho é a de eleger como prioridade para o meu trabalho a junção do que nós poderíamos chamar de "cacos", no sentido de fragmentos da história e da memória de uma pequena tribo que, por um tempo, foi total no sentido de auto-conhecimento, de saber tudo sobre si mesma, de viver em comunidade e de compartilhar de uma mesma visão de mundo. Depois que os brancos chegaram, foi quebrada essa unidade que a nossa memória nos possibilitava. Quebraram o vínculo com o nosso passado, a conexão com os ancestrais, com o mundo mágico, com o espírito da montanha, com o espírito das águas, com o espírito do vento, o grau de parentesco que cada uma das montanhas guardava com a nossa família. Ou o jeito de chamarmos o rio, que para nós não é somente um acidente geográfico, é um ser que tem humor: ele fica bravo, ele batiza nossos filhos; ele dá remédio, ele cura.
Ás vezes, quando visitando ou realizando atividades relacionadas às oficinas de Patrimônio do Arena da Cultura, tenho a sensação de estar encontrando fragmentos de uma história que em algum momento se quebrou. Encontro pessoas (geralmente idosos) vindos de diferentes partes de Minas Gerais, alguma vezes da Bahia, Goiás, São Paulo. Nestes encontros ouço cacos, fragmentos de vida vivida em um outro tempo. Muitas vezes sinto que é como se algo estivesse se quebrado e que de alguma forma esses encontros proporcionassem pequenos achados para as pessoas. A lembrança de uma boneca de papelão, uma festa, brincadeiras de criança, a vida na roça. Muitos se recusam, pelo menos em um primeiro momento, a pensar nestes fragmentos tamanho o sofrimento que trazem do passado. Aos poucos, quando conseguem continuar nas oficinas vão também trazendo as lembranças boas, transformando as lembranças ruins em histórias cheias de riqueza. Continuo me perguntando: O que podemos fazer com estes cacos?
Segue abaixo trechos de um poema que escrevi já a algum tempo.
Cacos dispersos e uma série de inválidos escritos
O resto são ecos de um tempo que passou
- mas se passou, passou!
- passou?
Retorno eterno, interno, para não envelhecer.... já foi.
O curso normal dinamitado.
- irreversível?
- então que tal ir pra montanha? praia?
......
Tenho uma idéia sobre tradição oral e sobre memória, que não são exatamente a mesma coisa. A memória pode ser alguma coisa além da tradição oral. Talvez a memória possa, em alguns casos, até prescindir da oralidade. Em algumas tradições a memória pode estar também ligada ao sonho. Na tradição do meu povo, sabemos que o sonho é um veículo de transmissão de memória. Nós podemos receber um canto no sonho e aquele canto é reconhecido como a continuidade do canto de um bisavô, de um tataravô que não está mais vivo e, portanto não está falando conosco. Ele está se comunicando, está transmitindo para nós a continuidade de uma memória através de um recurso que não é a fala, não é a tradição oral, é o sonho. É um exemplo que busquei para ilustrar a idéia de memória, pois acho que memória e tradição oral em alguns momentos se confundem, e em outros, dependendo da tradição e do povo a que você está se referindo, não são a mesma coisa.
Esta fala do Ailton krenak me faz lembrar uma história de uma pessoa muito querida que conheci no Pará. Um dia me contou como se deu com ela o processo de reconhecimento do poder de curar pessoas através das ervas, plantas medicinais. Ela era ainda uma adolescente de 16 anos e já sabia intuitivamente que tinha conhecimentos sobre plantas que eram diferenciados. Um dia teve um sonho com sua avó, e neste sonho recebeu ensinamentos e uma confirmação da sua capacidade de reconhecer plantas e ajudar outras pessoas. Acordou e lembrava de todos os detalhes do sonho, podendo reconstruir mentalmente as palavras e orações que recebera através do sonho. Ela não é uma indígena, mas é uma filha da floresta, com uma família em que se misturam nordestinos e indígenas.
Os cacos dispersos
Uma atitude que tenho é a de eleger como prioridade para o meu trabalho a junção do que nós poderíamos chamar de "cacos", no sentido de fragmentos da história e da memória de uma pequena tribo que, por um tempo, foi total no sentido de auto-conhecimento, de saber tudo sobre si mesma, de viver em comunidade e de compartilhar de uma mesma visão de mundo. Depois que os brancos chegaram, foi quebrada essa unidade que a nossa memória nos possibilitava. Quebraram o vínculo com o nosso passado, a conexão com os ancestrais, com o mundo mágico, com o espírito da montanha, com o espírito das águas, com o espírito do vento, o grau de parentesco que cada uma das montanhas guardava com a nossa família. Ou o jeito de chamarmos o rio, que para nós não é somente um acidente geográfico, é um ser que tem humor: ele fica bravo, ele batiza nossos filhos; ele dá remédio, ele cura.
Ás vezes, quando visitando ou realizando atividades relacionadas às oficinas de Patrimônio do Arena da Cultura, tenho a sensação de estar encontrando fragmentos de uma história que em algum momento se quebrou. Encontro pessoas (geralmente idosos) vindos de diferentes partes de Minas Gerais, alguma vezes da Bahia, Goiás, São Paulo. Nestes encontros ouço cacos, fragmentos de vida vivida em um outro tempo. Muitas vezes sinto que é como se algo estivesse se quebrado e que de alguma forma esses encontros proporcionassem pequenos achados para as pessoas. A lembrança de uma boneca de papelão, uma festa, brincadeiras de criança, a vida na roça. Muitos se recusam, pelo menos em um primeiro momento, a pensar nestes fragmentos tamanho o sofrimento que trazem do passado. Aos poucos, quando conseguem continuar nas oficinas vão também trazendo as lembranças boas, transformando as lembranças ruins em histórias cheias de riqueza. Continuo me perguntando: O que podemos fazer com estes cacos?
Segue abaixo trechos de um poema que escrevi já a algum tempo.
Cacos dispersos e uma série de inválidos escritos
O resto são ecos de um tempo que passou
- mas se passou, passou!
- passou?
Retorno eterno, interno, para não envelhecer.... já foi.
O curso normal dinamitado.
- irreversível?
- então que tal ir pra montanha? praia?
......
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
Outros Caminhos - África Brasil
A Pedra da Memória
http://vimeo.com/56037980
Documentário "Pedra da Memória", dirigido por Renata Amaral, que por meio de projeto levou membros da Casa Fanti Ashanti, do Maranhão, para viagem por diversas cidades do Benin, em 2010.
http://vimeo.com/56037980
Documentário "Pedra da Memória", dirigido por Renata Amaral, que por meio de projeto levou membros da Casa Fanti Ashanti, do Maranhão, para viagem por diversas cidades do Benin, em 2010.
A Palavra e o reencantamento do mundo
Sigo com os trechos do livro História Falada. Hoje publico trechos do texto de Nicolau Sevcenko Tradição Oral no Mundo Digital.
Oralidade, Preconceito e perda do Patrimônio da Humanidade
"O tema Tradição Oral no Mundo Digital coloca em evidência algo que esteve longamente fora de questão. Sabemos que a consolidação do sistema capitalista, base da cultura burguesa de raiz européia, centrou-se na imprensa a partir de Guttenberg. Conhecemos o seu efeito como agenciadora de conhecimentos que possibilitou a evolução tecnológica, que deu origem ao Ocidente o poder de domínio em escala global. Isso criou um preconceito de origem contra quem, como pessoa, comunidade ou cultura, não se organiza pela palavra escrita, mas pela comunicação oral; aqueles que, por essa razão, são classificados como analfabetos, com conotações de ignorantes e primitivos, conotações sempre negativas e excludentes.
Só muito recentemente é que pesquisadores, adontando perspectivas rdicalmente inovadoras, tentaram reverter esse quadro. Estudaram as características da cultura oral tentando compreender sua enorme riqueza e como ela foi brutalmente sufocada pelo poder da escrita, causando a perda desse patrimônio para a cultura de toda a humanidade."
Pavão Misterioso - Da Sibéria ao Nordeste Brasileiro
"... um dos mitos centrais da nossa cultura , o do Pavão Misterioso, na verdade é um mito de origem siberiana que chegou ao nordeste do Brasil via Península Ibérica, via Portugal. Essa é a magnitude da cultura oral, que já era global antes de a cultura escrita assumir este papel. O que se faz hoje é exatamente o inverso do enfoque tradicional. Tenta-se resgatar esse valor, esse patrimônio, e dele usufruir em benefício do alargamento dos nossos tesouros culturais."
Importante lembrar que a poesia popular, os cantadores das feiras tiveram um papel fundamental na passagem e transformação de histórias que chegaram no Brasil via Portugal. Segue abaixo um link para o cordel escrito por JOÃO MELQUÍADES FERREIRA DA SILVA, o cantor da Borborema. O texto está disponível para download no www.dominiopublico.gov.br
O Romance do Pavão Misterioso

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013
O sisal da Bahia a Minas
A arte de tecer e trançar da região do sisal baiano estará em exposição
Exposição Trançar, tecer: Valente, Araci e São Domingos
Inauguração: 21 de fevereiro de 2013, às 17h
Período: 21 de fevereiro a 31 de março de 2013
Inauguração: 21 de fevereiro de 2013, às 17h
Período: 21 de fevereiro a 31 de março de 2013
Exposição e venda
Terça a sexta-feira, das 11h às 18h
Sábados, domingos e feriados, das 15h às 18h
Sala do Artista Popular
Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular
Rua do Catete, 179
Catete – Rio de Janeiro
Terça a sexta-feira, das 11h às 18h
Sábados, domingos e feriados, das 15h às 18h
Sala do Artista Popular
Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular
Rua do Catete, 179
Catete – Rio de Janeiro
Realização
Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular/Iphan/MinC
Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular/Iphan/MinC
Estive na região do sisal baiano na década de 80, coordenado uma pesquisa sobre o trabalho infantil na colheita da pita, trituração e secagem do sisal. Naquela época pouco se falava da arte de tecer com o sisal. Conheci este trabalho em Cachoeira do Brumado, um pequeno distrito de Mariana em Minas Gerais, a centenas de quilômetros de distância da região do sisal.
Na minha visita á região do sisal me chamou a atenção o número de criança com dedos amputados. A realidade mudou bastante para as crianças da região e o trabalho infantil diminuiu muito. Outro fato que me chamou a atenção foram as pilhas e pilhas de sisal preparados para fazer cordas e outros tançados.
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013
Histórias de vida como Patrimônio da Humanidade
Publiquei nos posts anteriores trechos retirados do texto História oral: patrimônio do passado e espírito do futuro, do professor de pesquisa em Sociologia da Universidade de Essex, Paul Thompson. Este texto também está no livro História Falada.
Muito interessante abordar "Histórias de vida como Patrimônio da Humanidade". Em um mundo marcado pela necessidade das pessoas aparecerem, publicarem suas fotos, terem cinco segundos de "fama" com fotos banais do dia a dia, do seu final de semana, da sua viagem, pouco ou quase nada é dedicado as histórias maravilhosas de pessoas anonimas.
As cidades brasileiras são marcadas por histórias de grande riqueza. Esta riqueza é fruto das transformações que passaram o país principalmente durante o século XX. Muitos nordestinos, por exemplo deixaram suas casas, vizinhos, familiares para reconstruir a vida em São Paulo, Rio de Janeiro. O mesmo aconteceu com pessoas que deixaram suas casas no interior de Minas Gerais para morar em Belo Horizonte. Estas pessoas carregam histórias de superação, histórias de readaptação cultural, de trocas culturais de grande valor. Onde estão estas histórias?
terça-feira, 5 de fevereiro de 2013
Patrimônio imaterial para a Unesco
"Patrimônio cultural intangível ou imaterial: entende-se por patrimônio cultural imaterial as práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas - junto com os instrumentos, objetos, artefatos e lugares culturais que lhes são associados - que as comunidades, os grupos e, em alguns casos, os indivíduos reconhecem como parte integrante de seu patrimônio cultural."
Unesco
História oral: patrimônio do passado e espírito do futuro
História oral: patrimônio do passado e espírito do futuro
A seguir alguns trechos retirados do texto História oral: patrimônio do passado e espírito do futuro, do professor de pesquisa em Sociologia da Universidade de Essex, Paul Thompson. Este texto também está no livro História Falada.
Continuando...
"A história oral é considerada atualmente parte essencial de nosso patrimônio cultural. Essa é uma situação muito nova e, olhando para o futuro, acho que há possibilidades imensas, por exemplo, para criar novas conexões entre as pessoas em mundos sociais e geográficos diferentes através do oral, criando novas solidariedades e novos entendimentos."
Nós temos os registros a partir do fazer artístico, ou seja, as falas, as histórias de vida se transformam em desenhos, bordados, poemas. Mas isto ainda nos parece pouco, diante de tanta riqueza apresentada pelos participantes das oficinas.
As histórias individuais das pessoas estão intimamente ligadas as histórias de suas famílias. A família de origem (pai, mãe, irmãos, avós, tios) e a família que construíram ao longo da vida (companheiro, companheira, filhos, netos).
"De certa forma, pode-se dizer que existem dois processos fundamentais na sociedade: um deles é a produção de coisas, que acontece nas oficinas e nas fábricas, e o outro é a geração e socialização dos seres humanos que acontece nas famílias. Temos muita documentação sobre o processo de coisas, mas pouca sobre a produção de pessoas, e esse é o tipo questão no qual a história oral pode ajudar bastante."
terça-feira, 29 de janeiro de 2013
Entre uma postagem e outra.... uma visita à página do Territórios do Brincar... O que seriam dos brinquedos e brincadeiras do mundo todo sem a comunicação oral?
As mãos que fazem os meninos
Territórios do BrincarHistória oral: patrimônio do passado e espírito do futuro
A seguir alguns trechos retirados do texto História oral: patrimônio do passado e espírito do futuro, do professor de pesquisa em Sociologia da Universidade de Essex, Paul Thompson. Este texto também está
no livro História Falada.
",,, se voltarmos às sociedades mais antigas, aquelas anteriores à escrita e a imprensa, é claro , seus todo o conhecimento era transmitido de forma oral, incluindo habilidades cotidianas, trabalho, culinária, bem como genealogia, história familiar, história oficial e literatura. Apenas como exemplo, vejamos Homero: antes de serem escritos seus famosos poemas foram transmitidos durante 600 anos somente no "boca-a-boca"."
Em tempos de mídia eletrônica, de mensagens via email e redes sociais muitos se esquecem da impportância da comunicação oral. Nem tudo está no Facebook, ou melhor muito pouco da história de vida das pessoas está nas redes sociais. Por conta da quantidade de "informações" que passam diante dos nossos olhos, nos iludimos, achamos falsamente que temos acesso a tudo e tod@s as histórias de vida.
"Mas acho realmente importante lembrarmos que as formas de comunicação oral sobreviveram durante aquela época. Sobreviveram e ainda sobrevivem porque existem muitos papéis sociais importantes a serem cumpridos pelo oral."
E os sentimentos individuais...
Trabalhamos com seres humanos...
Trabalhamos com as linguagens artísticas...
"Na verdade , a expressão dos sentimentos sempre foi mais poderosa quando falada do que quando escrita."
"Sem a memória pessoal não podemos viver, não podemos ser seres humanos."
Mudança Social
"Articular pessoas por meio da produção e conhecimento de suas experiências é fundamental para romper o isolamento de alguns grupos sociais e impulsionar processos de mudança das relações sociais, políticas e econômicas. Ouvir o outro é o primeiro passo para respeitá-lo. Além disso, acreditamos que a pessoa, a comunidade, o grupo que conta a sua história percebe a dimensão do que realizou e reafirma sua capacidade de decidir e participar." Karen Worcman
Não faz parte da nossa meta a mudança social, mas é claro que as nossas oficinas podem dar uma pequena contribuição neste sentido. Temos inúmeros exemplos em oficinas espalhadas pela cidade.
sexta-feira, 25 de janeiro de 2013
História Falada... continuação...
Este blog tem como primeiro objetivo servir de espaço de anotações, trechos de livros, links relacionados à área de Patrimônio Cultural e a sua relação com Memória e Identidades.
Abaixo seguem algumas anotações retiradas do livro História Falada: memória, rede e mudança social. Escolhi iniciar os apontamentos por este livro porque traz relatos importantes sobre trabalhos realizados em torno da memória, em especial o do projeto Museu da Pessoa. Todas as anotações estarão presentes aqui pelo diálogo que estabelece com o trabalho que estou realizando no momento na Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte, dentro do Arena da Cultura - Formação e Criação Artística e Cultural. Na medida do possível irei comentar os trechos retirados dos livros.
"Longe de desprezar as fontes tradicionais de registro e de pesquisa como livros e documentos, procurou-se valorizar a história viva, contada por pessoas comuns, em grande parte negligenciada, apagada, esquecida, mal compreendida ou mal interpretada, já que muitas vezes estabelecida segundo interesses alheios ao do narrador.
Assim, temas como vida social e afetiva, trabalho, formas de organização e sociabilidade, crenças e religiões, festas, transformações urbanas, limites superados ou não longo do tempo são abordados pelo sujeito da ação, por quem a presenciou ou foi atingido por ela"
Miranda, Danilo Santos. História Falada: memória, rede e mudança social. São Paulo: SESC 2006.
Principalmente nas oficinas que realizamos com adultos e idosos a história de vida das pessoas tem sido uma constante. Não temos um projeto para o registro completo destas histórias. As histórias de vida das pessoas são o ponto de partida para a criação artística, afinal de contas o nosso objeto de trabalho é a formação e a criação artística.
Uma leitura a ser feita...
MEMÓRIA E CULTURA
A importância da memória na formação cultural humana
DANILO SANTOS DE MIRANDA (org.)
Continuando....

"O que é história oral? É um método? Uma disciplina? Um tema novo? Na minha opinião é uma abordagem muito mais ampla, é a interpretação da história, das sociedades e das culturas por meio da escuta e do registro da história de vida das pessoas. E a habilidade fundamental na história oral é aprender a escutar." Paul Thompson
O nosso grande desafio tem o sido o de incorporar a escuta em todas as nossas oficinas. A maioria do professores da equipe de Patrimônio têm feito isso, mas ainda é necessário lembrar alguns que a escuta é fundamental na condução dos nossos trabalhos.
"Se pudéssemos fazer circular as nossas histórias, de forma não centralizada, talvez traríamos de volta a memória ao nosso cotidiano, recuperando o papel dos griots - os antigos guardiões e contadores de histórias nos povos africanos. Já disseram que cada ser humano é uma biblioteca, fonte singular de conhecimento. Saber ouvir cada um, compondo as diferentes visões, revela-se assim um exercício básico de cidadania - parte essencial da aprendizagem e desenvolvimento humano. Pg 10 Karen Worcman
Como podemos fazer com que as histórias que têm aparecido nas nossas oficinas possam circular pela cidade de Belo Horizonte?
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