quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

O Resgate do Mundo Mágico - Sonho e memória oral

Os trechos abaixo são do líder e pensador indigena Ailton Krenak e também fazem parte do livro História Falada: memória, rede e mudança social.

Tenho uma idéia sobre tradição oral e sobre memória, que não são exatamente a mesma coisa. A memória pode ser alguma coisa além da tradição oral. Talvez a memória possa, em alguns casos, até prescindir da oralidade. Em algumas tradições a memória pode estar também ligada ao sonho. Na tradição do meu povo, sabemos que o sonho é um veículo de transmissão de memória. Nós podemos receber um canto no sonho e aquele canto é reconhecido como a continuidade do canto de um bisavô, de um tataravô que não está mais vivo e, portanto não está falando conosco. Ele está se comunicando, está transmitindo para nós a continuidade de uma memória através de um recurso que não é a fala, não é a tradição oral, é o sonho. É um exemplo que busquei para ilustrar a idéia de memória, pois acho que memória e tradição oral em alguns momentos se confundem, e em outros, dependendo da tradição e do povo a que você está se referindo, não são a mesma coisa.


Esta fala do Ailton krenak me faz lembrar uma história de uma pessoa muito querida que conheci no Pará. Um dia me contou como se deu com ela o processo de reconhecimento do poder de curar pessoas através das ervas, plantas medicinais. Ela era ainda uma adolescente de 16 anos e já sabia intuitivamente que tinha conhecimentos sobre plantas que eram diferenciados. Um dia teve um sonho com sua avó, e neste sonho recebeu ensinamentos e uma confirmação da sua capacidade de reconhecer plantas e ajudar outras pessoas. Acordou e lembrava de todos os detalhes do sonho, podendo reconstruir mentalmente as palavras e orações que recebera através do sonho. Ela não é uma indígena, mas é uma filha da floresta, com uma família em que se misturam nordestinos e indígenas.

Os cacos dispersos

Uma atitude que tenho é a de eleger como prioridade para o meu trabalho a junção do que nós poderíamos chamar de "cacos", no sentido de fragmentos da história e da memória de uma pequena tribo que, por um tempo, foi total no sentido de auto-conhecimento, de saber tudo sobre si mesma, de viver em comunidade e de compartilhar de uma mesma visão de mundo. Depois que os brancos chegaram, foi quebrada essa unidade que a nossa memória nos possibilitava. Quebraram o vínculo com o nosso passado, a conexão com os ancestrais, com o mundo mágico, com o espírito da montanha, com o espírito das águas, com o espírito do vento, o grau de parentesco que cada uma das montanhas guardava com a nossa família. Ou o jeito de chamarmos o rio, que para nós não é somente um acidente geográfico, é um ser que tem humor: ele fica bravo, ele batiza nossos filhos; ele dá remédio, ele cura.

Ás vezes, quando visitando ou realizando atividades relacionadas às oficinas de Patrimônio do Arena da Cultura,  tenho a sensação de estar encontrando fragmentos de uma história que em algum momento se quebrou. Encontro pessoas (geralmente idosos) vindos de diferentes partes de Minas Gerais, alguma vezes da Bahia, Goiás, São Paulo. Nestes encontros ouço cacos, fragmentos de vida vivida em um outro tempo. Muitas vezes sinto que é como se algo estivesse se quebrado e que de alguma forma esses encontros proporcionassem pequenos achados para as pessoas. A lembrança de uma boneca de papelão, uma festa, brincadeiras de criança, a vida na roça. Muitos se recusam, pelo menos em um primeiro momento, a pensar nestes fragmentos tamanho o sofrimento que trazem do passado. Aos poucos, quando conseguem continuar nas oficinas vão também trazendo as lembranças boas, transformando as lembranças ruins em histórias cheias de riqueza. Continuo me perguntando: O que podemos fazer com estes cacos?

Segue abaixo trechos de um poema que escrevi já a algum tempo.

Cacos dispersos e uma série de inválidos escritos
O resto são ecos de um tempo que passou

- mas se passou, passou!
- passou?

Retorno eterno, interno, para não envelhecer.... já foi.

O curso normal dinamitado.

- irreversível?
- então que tal ir pra montanha? praia?

......

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