Por isso, me parece tão pertinentes os questionamentos do Edmir Perrotti quando diz que:
"... não podemos deixar de perguntar também o que significam ações de registrar e preservar diferentes vozes e nossa época, tão rica em recursos tecnológicos de armazenamento e circulação de informações, mas tão pobre de interações que permitam às vozes tornarem-se efetivamente significados culturais vivos, que ultrapassam os limites estreitos de onde são pronunciadas. Nesse sentido, não podemos deixar de considerar, por exemplo, que muitas vezes o direito a voz é direito a expressão, mas não a escuta social, condição de sua existência cultural e razão de ser."
Foto: Helena Flávia Lima
As pessoas adoram falar, cantar, poetar, pintar, desenhar suas vidas, seus conhecimentos. Mas, mais que tudo elas gostam da troca, do aprender junto. Ao mesmo tempo em que falam, cantam, dançam, querem que também tenha-se um tempo para tomar um café, um chá, dividir um pedaço de bolo. Transformar o espaço do encontro em um espaço afetivo.
Muitas vezes achamos que registrando, e até mesmo entregando os registros de volta à pessoa, ou pessoas que foram "a voz" desses registros, estamos garantindo o direito a voz. As pessoas querem mais do que isso, querem a ocupação do espaço social, querem participar das decisões do espaço social, querem se sentir donas da sua capacidade criativa.
"... se publicarmos tais vozes, sob diferentes formas, a simples publicação não garante também o direito à voz. A voz, além do espaço social, necessita do espaço público para ter existência e validar-se culturalmente. Sem isso pode até tornar-se um fenômeno de bases quantitativas importantes, mas não um fenômeno de reconhecida importância, capaz de introduzir novos significados na cultura." (Edmir Perrotti)
Temos ainda um outro risco em torno dos registros, o dos chamados "produtos culturais", que são resultados de oficinas, encontros, trabalhos realizados em torno da memória e do patrimônio. É muito comum que os gestores e professores procurem modelos de "sucesso" no trabalho com a memória. Em Minas Gerais temos as Meninas de Sinhá, as Lavadeiras de Almenara, as "colchas de retalho", que as pessoas querem ver reproduzidas nos trabalhos, principalmente aqueles com idosos. Vêm nestes exemplos uma possibilidade de geração de renda, do sucesso, da visibilidade. Mas não percebem um risco por trás destes exemplos:
"O risco de mercantilização da memória é, portanto grande, uma vez que do produto ao mercado, o passo é pequeno e rápido. A memória-produto, a memória-mercadoria é, pois, um risco que ronda permanentemente os projetos de memória de nossa época."
Não vejo problemas em atividades que criem perspectivas de geração de renda para as pessoas, ou mesmo de uma possibilidade de visibilidade social através da música, da dança, dos trabalhos artesanais. O problema acontece quando o "produto" é mais importante que o processo. Em geral quando isso acontece, os grupos perdem em diversidade e os "menos aptos" são deixados para trás. A criatividade cede espaço ao "bem acabado", ao modo "certo" de fazer, à cópia dos exemplos que deram certo.
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